terça-feira, 19 de agosto de 2008

Angélica, Augusta, Consolação...


Fim de semana em São Paulo. Sexta é dia de rock. Sábado idem. E no domingo, só pra variar, o rock também não pode faltar. Trata-se da cidade mais rock n’ roll da América Latina. Para um carioca carente de casas, shows e público de rock, São Paulo assusta. No bom sentido, lógico. É gente vestida a caráter por todos os lados, é a estrondosa Galeria da 24 de maio, é a inacreditável Rua Augusta, com suas dezenas de palcos e festas lotadas... Desta vez fui disposto a conhecer a fundo os caminhos da cidade que veste preto. Nem preciso dizer que conheci menos de 1% do que a terra da garoa (que não deu as caras em nenhum instante da minha rápida estadia) tem a oferecer. Folk-rock, punk-rock, pure-rock e muita gente louca pelo caminho. São Paulo é o que há!

Desembarquei no terminal do Tietê na tarde de sexta-feira (15/08). À noite, Vila Mariana abrigaria o esperado show do norte-americano Josh Rouse. Adquiri a entrada (com poltrona marcada) por contato telefônico e cheguei tranqüilo para o evento, sem pressa ou receio de perder o lugar. Fiquei hospedado na Consolação, próximo ao fantástico Cine Belas Artes e a dois passos da Paulista, o coração da cidade.

O metrô de SP, baita transporte eficiente, te leva com segurança e rapidez a qualquer canto. Basta se dedicar a um complexo jogo de memória a partir dos gráficos que mostram os cruzamentos entre as linhas verde, vermelha, azul, etc. Nem foi tão difícil assim. Em dois dias me tornei um craque nas baldeações e atravessei sem problemas a cidade. Exatamente por essa razão é que fiquei impressionado com o total desconhecimento de alguns paulistanos pelos caminhos da própria cidade. Para chegar ao SESC Vila Mariana, por exemplo, me indicaram descer na estação homônima. O que me atrasou em uma caminhada de quase meia-hora, pois o teatro se localiza bem ao lado de outra estação, Ana Rosa! Erro que seria compreensivamente perdoável, se a informação não fosse dada por uma funcionária do próprio SESC. Vai entender...

Bom, não fora um caso isolado. É difícil se locomover em SP por meio de informações dos transeuntes. É melhor levar um mapinha e uma boa dose de sorte no bolso. Ninguém sabe onde fica lugar nenhum e muito menos como se chega lá! Quando estive na cidade, em outra ocasião, andei muito de táxi e era freqüente ouvir os próprios taxistas perguntarem uns aos outros como deveriam chegar em tal bairro. É claro que não acreditei que aquilo estivesse acontecendo e julguei como uma cretinice de aproveitadores baratos. Jurei que nunca mais pegaria táxi em São Paulo, e, nesta última viagem, cumpri o prometido. Mas agora me pergunto se realmente aqueles taxistas não sabiam o caminho... Não importa. É o trabalho deles e eles têm que saber de cor e não usar meus trocados para aprender. Fica a dica: não vá de táxi em São Paulo, mesmo que para isso você tenha que andar a noite inteira por causa de uma informação incorreta. De qualquer forma, o taxista também não vai saber te levar.

Josh Rouse subiu ao palco pontualmente às 21:00h. O tímido e simpático baixinho trouxe na bagagem o folk-rock inspiradíssimo do seu último álbum, “Country Mouse, City House”. Ao vivo e a cores a voz de Josh consegue soar mais suave e potente do que nas gravações. E o som do SESC é algo de impressionante! Muito bom mesmo! O teatro estava lotado, o público animado e o clima tranqüilo. Levei minha câmera pra registrar alguns momentos do show, mas infelizmente descobri que ainda não sei usá-la. Todas as fotos ficaram horríveis! Ao meu lado, um casal de velhinhos (isso mesmo, velhinhos!), que não faziam idéia de quem estava no palco cantando, tiravam altas fotografias (provavelmente para mostrar aos seus bisnetos). É, eu me odeio...

Na platéia, vários pedidos de canções e mensagens proferidas em inglês. Um carinha pediu para que o Josh falasse em espanhol (ele é casado com uma espanhola e mora por lá). O cantor respondeu com um “por que?”, no bom idioma de Cervantes, e logo depois emendou um “por favor, falem em português!”. Prontamente, uma esperta menina soltou um “lindooo!”, arrancando gargalhadas gerais. Ele ainda elogiou a sonoridade nacional, sem citar nomes (“nem entendo o que falam, o que importa é gostar da música, não é verdade?!”), comentou em tom irônico sobre os brasileiros “comprarem” seus discos pela internet (somente um álbum da discografia de Josh foi lançado oficialmente no Brasil, Home, de 2000) e apresentou sua ótima banda (destaque para o sósia de Jack Osbourne no baixo).

O início do show foi recheado de canções do álbum Nashville (2005), que não conheço muito. Ótimas, mas nem de longe comparáveis a obra de arte que é “Sweetie”, a mais bela das canções de Rouse. “Sweetie” é a faixa de abertura do seu último registro. Uma linda coletagem de versos singelos, que Josh iniciou acompanhado apenas ao som do seu violão (“We'll sleep on rooftops / We'll ride on bicycles / Baby, we'll get married / Don't you want to, Sweetie?”). Com vozes e melodia perfeitas, arrepiando os bem-aventurados ali presentes.

É estranha a experiência de assistir a um empolgante show sentadinho na poltrona do teatro. O set durou mais ou menos uma hora e meia e nas últimas três canções o povo já se concentrava na borda do palco, empunhando um batalhão de máquinas fotográficas. A essa altura quase todo o teatro assistia em pé, cantando juntos a última música do espetáculo, “Directions”, da trilha de Vanilla Sky. Um lindo show.

Bem, o sábado prometia. Acordei cedo e parti pro Anhembi. Teve a Bienal do livro, que foi mais fraquinha do que a do Rio no ano passado. Menos saldos, menos encontros literários, menos novidades. Depois fui à Galeria do Rock e dei umas voltas pelo “Centro velho” de Sampa. Mas nada disso interessa, porque nessa noite Wander Wildner Y Sus Comancheros se apresentariam no Inferno Club da Rua Augusta!

A Rua Augusta é um caso à parte na vida cultural paulistana. Já ouvi gente comparando a Lapa, aqui no Rio, e isso é risível! A Rua Augusta não tem comparação! Um corredor de casas noturnas, a maioria especializada em rock (no, assim chamado, lado Centro), com bandas se apresentando ao vivo e gente, muita gente, entrando e saindo, descendo e subindo a movimentada rua. Antes de qualquer coisa, a Augusta não deixa de ser a área mais democrática da cidade. Não só rockers transitam pelas suas calçadas. Dos cinemas de arte às casas de “luzes vermelhas”, todos os tipos se concentram na Augusta.

Novato nas andanças pela cidade, corri cedo para o burburinho. Por volta das onze da noite (conforme anunciavam no flyer de divulgação) cheguei à porta do Inferno Club. E que surpresa quando dei de cara com a fachada ainda lacrada e sem uma alma viva à frente. Do outro lado da calçada, ao contrário, uma multidão se aglomerava na entrada da Outs, outra casa famosa na região. Peguei uma cerveja gelada e fiquei de papo com dois integrantes de uma banda local, que me ofereceram um zine bacana com informações sobre a cena, poesias, textos e entrevistas. Eles me disseram que um pessoal do Rio, o Deluxe, se apresentava na Outs e fiquei feliz em reconhecer um antigo parceiro de banda, que há tempos eu não encontrava.

As horas passaram e o Inferno (adorei o nome desse lugar) abriu suas portas. Uma fila, ainda discreta, já se formava diante da bilheteria da casa. A entrada era toda decorada em óbvios tons de vermelho, neons e cortinas pesadas que lembravam antigos teatros poeirentos. A hostess sorriu com a minha expressão interrogativa, “mas que ‘diabos’ é este lugar?”

No interior, uma casa muito agradávell. Muitos sofás confortáveis espalhados ao longo das laterais e, ao fundo, um belo palco amplo e aconchegante. Logo à direita de quem adentra o espaçoso salão, um gigantesco quadro com Tony Montana centrado numa nota de dólar. Nele, a inscrição: “Who do I trust? I trust me”, gravada em letras maiúsculas. Tô em casa! Sentei no bar e pedi uma cerveja, sendo prontamente atendido pelo agitado barman de moicano. A mocinha tatuada que colocava o som despejou um “Black Sabbath” e ouvi alguém gritar nos primeiros acordes. Do meu lado, duas meninas sorridentes e levemente alcoolizadas. Ficamos lá cantando juntos até que uma delas me disse que não dava mais pra ver meus olhos de tão pequenos que já estavam. Falei que era a luz e com isso denunciei meu sotaque, no que a outra emendou: “ele é do Rio!”

Uma da manhã. Ainda era cedo para os padrões da Augusta. Nem a banda de abertura havia subido ao palco. As meninas se apresentaram dizendo que moravam uma na Liberdade e a outra no Paraíso. Olha que lindo! Fui tentado a lançar um “e a gente vem se conhecer no Inferno, que bacana!” Elas não riram. Acho que não entenderam ou não gostaram da piada. Ou então eu já estava tão mergulhado nas cervejas e tequilas da casa que elas não ouviram nada do que eu disse.

A banda de abertura, confesso que nem vi entrar ou sair do palco. Eles tocavam uma coisa meio Country e foi a hora de ficar falando sobre como São Paulo é melhor do que o Rio e de como eu admirava aquela gente e aqueles lugares. Chegou um japinha dizendo que o Wander só tocaria às três da manhã. “Putz... Essa hora da madrugada normalmente eu já estou no quinto sono!” Mas a mocinha tatuada quebrava tudo com Stooges, Dead Boys, Johnny Cash, Ramones... Eu não conseguia parar de cantar!!

Lá para as três, Wander Wildner entrou em cena com sua fantástica banda (Jimi Joe, Georgia e Pitchu). De cara, tocou três músicas do álbum novo, La Canción Inesperada, e este foi o tempo que eu levei pra pegar mais uma lata gelada e alcançar a turma do gargarejo. Quando Wander começou os primeiros acordes de “Minha Vizinha”, eu já estava lá na frente, pronto pra berrar junto! (“Moro sozinho / Num apartamento / No sétimo andar / De um prédio pulguento / Ouço vozes à noite / Que vem da parede / É a minha vizinha / Que acorda com sede...”) E todo mundo pulando junto, dançando e cantando e bebendo. Ah! Maravilha! (“Eu quero ficar preso contigo no elevadoooor...”)

Não vou lembrar da ordem das músicas. Assim já é demais, afinal, era o show do Wander Wildner! Sei que cantei “Beverly Hills”, “Eu tenho uma camiseta”, “Uste”, “Mantra”, “Maverikão”, “Narciso”, ... Viva a cerveja! Quando Wander falou qualquer coisa sobre o Júpiter Maçã (que no mesmo horário também fazia show na cidade) o povo já sabia que a próxima era o “Lugar do Caralho”. Ah! Aí o Inferno esquentou! Uma felicidade só (“Um lugar onde as pessoas sejam loucas / E super chapadas / Um lugar do caralhoo!”) Lembro da Georgia, muito simpática, abrindo um sorriso monumental. Se eu estivesse em condições mais sóbrias subia no palco e dava-lhe um abraço apertado! Ou não, né?!

Das canções novas, destaque para “Um bom motivo” (“Então me dê um motivo pra não chorar / Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite”); a romântica “Porta retratos” (“Eu cada vez tenho mais planos / E sei que vou realizar / Mas meu propósito é amar / De forma incondicional”), para se afogar em lágrimas!! “Mares de Cerveja”, que contou com a participação de um carinha que subiu ao palco e cantou toda a letra com o Wander (“Embebedar o medo de arriscar / E navegar em mares de cerveja / Uô uô, em mares de cerveja”) e o clássico dos clássicos, “Amigo Punk”, releitura de uma antiga canção dos gaúchos da Graforréia Xilarmônica, que teve um coro em massa e desde já é canção obrigatória nos shows de Wildner (“Amigo Punk / Escuta esse meu desabafo / A essa altura da manhã / Já não importa o nosso bafo”)!

Faltou “Hippie Punk Rajneesh”, mas aí também eu já estava quase apagando. Depois do show ainda rolou uns sons dos 80, Joy Division, Pixies, Cure... Cansado, marquei de ir embora com um povo que não queria ir embora. Taí, eu sou uma paródia de mim mesmo. Saímos do Inferno com o dia claro e um frio cortante. Na volta, os nativos ainda tiveram disposição para traçar um cachorro-quente prensado numa chapa com purê de batatas (!!!) e me deixaram realmente assustado ao testemunhar a enorme fila para entrar numa casa chamada Vegas, com todo mundo arrumadinho e estiloso... Às seis da manhã de domingo!

Nem preciso dizer que dormi o dia inteiro. Acordei na ressaca e voltei a cair na cama pra só sair novamente à noite. Na primeira semana de setembro tem The Hives em SP. Dia de repetir a dose na cidade mais rock n’ roll que conheci na vida!

domingo, 20 de julho de 2008

Why so serious?


Durante os 152 minutos de "The Dark Knight" somos assolados pelo horror factível: a tensão é real, o medo é real, a assombrosa possibilidade do encontro com um agressor sem limites, irrepreensível e indestrutível, é real. Um criminoso onipresente, um verdadeiro homem-bomba, pronto para o auto-sacrifício em nome do caos. É o Coringa de Heath Ledger, um dos maiores psicopatas já interpretados na história do cinema. Armado com pequenas facas e outros objetos cortantes, a figura do macabro palhaço torna-se digna do pior terror fundamentalista que passeia por supermercados lotados com os cintos repletos de dinamite. É o perigo logo ali, no meio da multidão, onde qualquer um, a qualquer instante, torna-se uma vítima em potencial. É a maldade humana desvelada na pior das suas intenções, ou seja, a maldade pela maldade. O terrorismo do Coringa é o "11 de setembro" de Gotham, que injeta medo a ponto de colocar em questão as próprias noções de humanidade e civilidade (como na emblemática seqüência das barcas explosivas). A diferença é que o fugitivo de Arkham o faz simplesmente porque viciou-se no caos.

Gotham City, apesar de despontar como uma megalópole no auge do seu poderio econômico (demonstrada através da suntuosa arquitetura que se distancia do traço original dos quadrinhos) está moralmente decadente. Inundada pela corrupção, ungida pela inversão dos valores, sedenta pela política de tolerância zero aos mafiosos, a cidade clama por um choque de justiça. E vê no promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart) a esperança de dias melhores.

O justiceiro conhecido como Batman (Christian Bale) já não é mais uma unanimidade, mesmo ainda atuando em parceria com a polícia de Gotham e sendo agraciado com a simpatia de Dent. Surgem exclamações do tipo "a loucura de um atrai a loucura do outro", e isso soa explícito quando o Coringa admite apaixonadamente: "eu não existo sem Batman". E é em Harvey Dent que Bruce Wayne lança todas as suas fichas, acreditando na possibilidade da honrosa aposentadoria do homem-morcego. Aliando a ação heróica de Batman na prisão de um informante com a destreza jurídica do promotor Dent, o crime organizado é totalmente desmontado. Gotham e Batman só não contavam com aquela tenebrosa e tingida aparição.

O Coringa é desenvolvido perfeitamente em todos os níveis de sua construção. Do espetacular roteiro sobressai a imagem de um vulto sem nome, sem rosto e sem passado. Um Coringa que revela esquizofrenicamente a origem de suas cicatrizes, suporta a dor com uma perturbadora tranqüilidade e incendeia uma montanha de dinheiro. Da sublime atuação de Ledger é impossível reter momentos destacados, todas as cenas são impressionantes! A tinta borrada sobre o rosto acentua o olhar doentio e hostil, os dentes apodrecidos surgem em largos sorrisos e a boca deformada é enfocada pela constante contração dos lábios e movimentos que exibem a língua, como uma serpente venenosa. Os trejeitos tensos das mãos sujas, o andar manco e os cabelos emaranhados remetem também a imagem da górgona, o repugnante e deformado ser mitológico. A interpretação é digna de estatuetas e presença nas listas de melhores do ano, o que seria um reconhecimento justo pelo grande trabalho do ator que imortalizou a imagem do arquiinimigo de Batman. Depois de Heath Ledger, torna-se impossível interpretar novamente o Coringa no cinema.


quinta-feira, 17 de julho de 2008

The Mumlers


The Mumlers é uma simpática trupe californiana que acaba de lançar seu primeiro registro, o álbum "Thickets & Stitches", pelo selo independente norte-americano Galaxia. O nome da banda é inspirado no fotógrafo William Mumler, que conquistou certa notoriedade em fins do século XIX alardeando a proeza de clicar fantasmas. A banda, que existe desde 2005, conta com um time de sete integrantes equipados com instrumentos que vão desde um clássico contrabaixo acústico àquela cornetinha encaracolada conhecida como "french horn".

O som é viciante. Vocais macios e tranqüilos, baixo e bateria "jazzificados" e preciosas inserções de sopros. Para os órfãos de Los Hermanos, recomendo muito. Não há como não pensar no som dos cariocas em "Dice in a drawer", a faixa de abertura. Outra canção que se destaca é "Shake that medication", um surpreendente rascunho big band com direito a piano-bar, um coro sen-sa-cio-nal e "palminhas sixties" acompanhando o refrão. Já "Whale Song", para além da comparação mamífera, me fez lembrar do "Leãozinho" de Caetano Veloso. Ouça acompanhado! É lindíssima e causará uma boa impressão. "Untie my knots" tem um clima marcial que cairia bem na trilha de um filme (e quando eu for cineasta podem apostar que vou usar essa canção numa bela panorâmica!).

The Mumlers é para quem gosta de folk, Belle & Sebastian, Cake e a trilha de Juno. Se você se identifica com essas coisas, procure este disquinho porque vale a pena.

The Mumlers
Thickets & Stitches

Galaxia recs. (EUA, 2008)

1. Dice In A Drawer / 2. Hitched To The Sun / 3. Red River Hustle / 4. Shake That Medication / 5. Two Cowbells / 6. Whale Song / 7. Untie My Knots / 8. (...) / 9. Hush / 10. The Hinges Lament / 11. So Long

terça-feira, 15 de julho de 2008

Beth Ditto vem aí!


Estejam atentos para o show mais bombástico do ano: The Gossip confirmou presença no Tim Festival 2008.

Tenho passado os últimos dias me deliciando com a discografia do trio formado por Beth Ditto (voz), Brace Paine (guitarra) e Hannah Blilie (bateria), principalmente "Standing in the way of control", de 2006, e o registro mais recente, "The Gossip: Live in Liverpool".

A banda surgiu no ano de 2000, no Estado do Arkansas (EUA). De lá pra cá, contam-se três álbuns de estúdio, outro ao vivo e mais alguns EP’s gravados. Hoje residem em Portland, Oregon, mas, como informa o site oficial, passam 80% do tempo na estrada. A última destas viagens aconteceu mês passado, quando atravessaram o Atlântico (o que fazem com certa regularidade) para uma festejada apresentação no Festival de Glastonbury, Inglaterra.

Ditto é a gordinha da foto, uma bandleader carismática que exala rock n’roll por todos os poros. Foi eleita a artista mais "cool" do planeta pela New Musical Express no ano de 2006. Seu timbre é o ponto alto da sonoridade do Gossip, com uma voz potente, carregada de assumidas influências Soul. É também conhecida pela intensa movimentação no palco, adora polemizar lançando declarações incendiárias e, freqüentemente, rasga as próprias roupas diante da platéia.

A banda anuncia referências sonoras de Nico, The Shaggs e Yoko Ono(!). Os riffs de Paine são engenhosos, lembram os de Franz Ferdinand e White Stripes. Combinam aquela pegada mais punk (Stooges!) com um clima de pista, garantido pela entusiasmada batida de Blilie. Nos shows costumam citar de Nirvana ("Smells like teen spirit") a George Michael ("Careless Whisper"), mostrando a versatilidade desse criativo trator sonoro.

Bem, como o histórico do Gossip promete e o clima da cidade sempre levanta o astral dos artistas que por aqui se apresentam, é de se esperar uma noite arrasadora. O que não é muito difícil com um set-list que inclui "Jealous girls" e "Standing in the way of control", que já são dois clássicos definitivos da cena musical dos ’00.

Imperdível!!!


Set-list da apresentação em Glastonbury:

Listen Up! - Pop Goes The World - 8th Wonder - Fire/Sign - Coal To Diamonds - Jealous Girls - Spare Me From The Mold - Your Mangled Heart - Heavy Cross - Love Long Distance - Standing In The Way Of Control


domingo, 29 de junho de 2008

Paris, 1968-69


Amantes Constantes ("Les Amants Réguliers", França, 2005) é uma iguaria fina. Uma obra-prima cinematográfica para ser degustada prazerosamente, recomendada aos apreciadores de um cinema denso ou, como é mais comum dizer, “de arte”. Antes de correr para a loja de dvd’s mais próxima, vale informar aos desavisados que o filme contém uma linguagem dura para os padrões comerciais. A começar, exagera em planos longos, lentos, quase fotográficos (o que rendeu o prêmio principal da categoria em Veneza, 2005). Tem quase três horas de duração e é todo rodado em preto & branco, numa bem sucedida tentativa de aproximá-lo com a estética de produção cinematográfica típica do tempo e espaço históricos onde se desenvolve a trama (Paris, 1968-69). O roteiro é fragmentado, repleto de silêncios e nada didático. Desenvolve-se sensivelmente pelos caminhos de uma geração confusa, que pensou ter nas mãos uma revolução e amanheceu amedrontada, andando pelas sombras e consumindo haxixe para passar os dias.

De cara, somos transportados para dentro das barricadas do Maio de 68. E o filme mostra o lado amargo do Quartier Latin. Nem um pouco românticas, as cenas noturnas de confronto entre os estudantes e a polícia francesa dão o tom da primeira hora de película. A árdua movimentação, a fuga desesperada pelos becos, uma moça ferida e inconsciente, a repressão avançando... E na solitária manhã do dia seguinte, o resultado dos embates: rostos sujos de fuligem, sapatos encardidos e um cansaço paralisante. O jornal anuncia o amolecimento dos sindicatos. Vem aí o contra-ataque. Decepcionada, aquela juventude deixa no ar frases desnorteantes, como "Gostaria de viver numa sociedade onde os filhos não tivessem que odiar seus pais", "Um militante comunista segue seu livrinho vermelho como um padre segue a Bíblia" ou "como podemos fazer a revolução do operário, apesar do operário?".

Philippe Garrel (direção e roteiro) usa e abusa de símbolos e citações em constante diálogo com o texto. Nada é irrelevante. A foice e o martelo abandonados pelas ruas, as referências aos poetas franceses que clamaram por liberdade, os cineastas Bertolucci e Pasolini, a Revolução de 1789 e os onipresentes medo, ausência de expectativas e cansaço. "This time tomorrow, where will we be?", a canção dos Kinks que embala uma animada festa, anuncia a chegada de 69, o ano da ressaca. E é nessa virada que o filme deixa de lado o turbilhão histórico e foca seus interesses na relação entre François (Louis Garrel, "Os Sonhadores") e Lilie (Clotilde Hesme). Eles freqüentam o mesmo grupo e ela já o havia visto nas ruas do Maio. "Você é linda", ele diz, e cita o poeta Alfred de Musset, "sinto falta do sossego e da despreocupação". Surge o amor e o paradoxo entre a paixão e a liberdade. Um amor sincero, porém arriscado. Um amor daqueles que é para sempre. Mesmo que o pra sempre, sempre acabe.


sexta-feira, 20 de junho de 2008

A menina que se desmatematizou


Como você pôde crescer tanto? Como isso foi possível? Como não percebi que você era a protagonista de um clássico da literatura universal? Como não vi que você era aquela lua que baila com as marés e equilibra a superfície da Terra? Como não senti que a tua alma fora moldada pelos próprios suspiros de uma divindade olímpica?

E por aí nos esbarramos mais uma vez. Pelas esquinas interplanetárias de Zenn-La. Mas acho que dessa vez vou permanecer em vigília por toda a noite. Noite que, entrementes, não conhecemos. Quase como aquele feitiço de Áquila, a noite era minha, o dia era seu. Encontros e desencontros. Bom dia, noite. Boa noite, boa sorte. E quantos filmes ainda não assistimos e comentamos...

Festivais e festivais. Shows e shows. Livros e livros. Bares e cafés. Quantas conversas interrompidas? Quanto silêncio cultivado? Quanto tempo perdido? Somos tão jovens! E agora a juventude é ainda mais juventude. Estremeço ansiosamente quando penso nos teus olhos. Como é que não vi brotar esta deslumbrante Senhorita?

E você me diz que deixou acontecer assim para não me confundir? Mas o salva-vidas sabe quando é hora de observar o banhista incauto! E você é um feito inédito para a minha compreensão. Você é uma heresia para a simploriedade, um remédio anti-banalidade. Qual é teu lugar? Qual é tua cor? Qual é tua música? Qual é tua palavra?

Com você de novo por perto não tenho mais medo do escuro, nem do futuro, nem da solidão. Agora eu sei que valeram a pena todas aquelas digressões filosóficas. É hora de colocar a conversa em dia!

Anna Karina & Jean Paul Belmondo
Une femme est une femme, J-L.Godard
1961


As surpresas da vida...
E ouça esta canção: “Vamos fazer um filme?”!


quarta-feira, 18 de junho de 2008

Confronto


Estou cansado. Mas ainda é cedo para não escolher. A hora é de sangrar, rasgar a pele, é navalha na carne. Mas não sei se quero ir além. Já deu tudo errado por aqui. Até quando vagarei pela floresta tropical densa, infestada por armadilhas letais, sanguessugas que invadem meu corpo instalando-se sob minha derme, corroendo minhas hemácias, contaminando minhas artérias? Não tenho sossego. Não encontro uma fonte de água virgem. Bebo lama entorpecida por fezes fétidas de abutres saciados por tripas humanas putrefatas. Atravesso o mesmo trecho onde um dia contemplei, na segurança de uma copa distante, o destrinchamento de um búfalo gordo. Um macho forte e robusto reduzido a uma carcaça em pedaços. O animal cruzava aquele rio guiando o rebanho e eu reparava, lá do alto, a movimentação ao redor. Descendo a margem ele invadiu aquele mundo desconhecido, torpe e pavoroso. Sabia que seria assaltado. Porém, sabia antes disso da necessidade daquele caminho para o destino instintivo da coletividade. Aos poucos mergulhou, mantendo apenas a cabeça e o dorso acima do espelho. Adiante, o embate se desenhava. Da água escura surgia uma mancha comprida. Depois a visão de dois enormes serrotes que se fecharam em torno do pescoço daquela criatura de olhos tristes e pesados. Sacolejos. Luta. Mugidos. Afogamento. Sangue escorrendo pelos lados. Por todos os lados! De repente, outras manchas escamosas o cercavam e outros serrotes o tocavam. O restante da manada resolvera atravessar em pânico. Reuniam-se num bloco bovino espesso que cortava o rio em diagonal de uma margem à outra. Força da água contra a força pela sobrevivência. O macho atacado ainda se debatia com intensidade, mas sua derrota era iminente. Por que resistir? Por que insistir? Um golpe preciso cravava aquelas duas grandes fileiras de ossos afiados no dormente mártir, que agora deitava-se sob o espelho. E descia mais. E desaparecia para sempre. E a água ali se tornava mais escura.

De onde estava nada me incomodava. Assim era melhor. Aquele búfalo cumpria sua função na cadeia da vida e os demais indivíduos do rebanho chegavam em segurança ao outro lado do rio. Dali vão partir ao encontro de novos predadores, novas infestações, novos abates. Alguns ficam para trás e outros seguem em frente. Continuei observando. Antes aquele vistoso e parrudo espécime. Antes ele do que eu. Assim as coisas acontecem por aqui. Todos contra todos é o drama telúrico. E às vezes os mais fortes são os primeiros a morrer. Assim é a lei da selva. E essa lembrança me acometeu agora, pois chegara a minha vez. Eu tinha que seguir adiante e, enfim, atravessar aquele mesmo rio, naquele mesmo trecho. E via as manchas escuras que se aproximavam lentamente...

***

Edvard Munch "A Dança da Vida", 1900.


Edvard Munch "Grito", 1893.


Edvard Munch "Golgotha", 1900.


domingo, 15 de junho de 2008

"Living well is the best revenge"


Ar puro! Rock! Eis que surge o melhor álbum desta primeira metade de 2008. Accelerate do R.E.M. é som para não sair tão cedo do MP3 player. Coletando clichês da crítica especializada a gente chega lá: “volta às origens”, “visceral”, “busca pela essência”. É por aí mesmo. Será que estou demasiadamente empolgado ou Michael Stipe atingiu o auge da sua forma vocal? E Mike Mills combinando contorcionismos virtuosos com pegada virulenta nas linhas graves? Haja fôlego! As três primeiras faixas você escuta sem perceber que o tempo passou para estes quase cinquentões (lembre-se que foram eleitos melhor banda de rock norte-americana pela Rolling Stone no ano de 1988, ou seja, há exatos vinte anos!). Produzido por Jacknife Lee (que fez o álbum de 2004 do U2, mais Bloc Party, Green Day, etc.), as guitarras de Peter Buck ganharam tons cortantes e riffs acelerados (óbvio!) sem jamais perder a típica ternura.

Ah! Que lindo esse disco! Que apropriado! Renascimento, reconstrução, recrudescimento. Rock é isso? É! Quando ouvi Horse To Water quase não acreditei, deve ter um Kurt Cobain invocado ali em algum cantinho. E o refrão emocionante de Mansized Wreath? Ouve aí, não estou mentindo, não sai da cabeça! Supernatural Superserious também dá vontade de cantar em coro com uma introdução arrebatadora Buck-Stipe e um belíssimo refrão Mills-Stipe.

Hey, Michael, você e seus amigos estão perfeitos, cara! Um disco como há tempos não se ouvia por aí. Aposto que não existe sequer uma crítica negativa. Não consigo parar de ouvir!

R.E.M. – Accelerate (2008)
Produzido por Jacknife Lee e R.E.M.

01. Living Well's the Best Revenge 02. Mansized Wreath 03. Supernatural Superserious 04. Hollow Man 05. Houston 06. Accelerate 07. Until the Day Is Done 08. Mr. Richards 09. Sing for the Submarine 10. Horse to Water 11. I'm Gonna DJ