Fim de semana em São Paulo. Sexta é dia de rock. Sábado idem. E no domingo, só pra variar, o rock também não pode faltar. Trata-se da cidade mais rock n’ roll da América Latina. Para um carioca carente de casas, shows e público de rock, São Paulo assusta. No bom sentido, lógico. É gente vestida a caráter por todos os lados, é a estrondosa Galeria da 24 de maio, é a inacreditável Rua Augusta, com suas dezenas de palcos e festas lotadas... Desta vez fui disposto a conhecer a fundo os caminhos da cidade que veste preto. Nem preciso dizer que conheci menos de 1% do que a terra da garoa (que não deu as caras em nenhum instante da minha rápida estadia) tem a oferecer. Folk-rock, punk-rock, pure-rock e muita gente louca pelo caminho. São Paulo é o que há!Desembarquei no terminal do Tietê na tarde de sexta-feira (15/08). À noite, Vila Mariana abrigaria o esperado show do norte-americano Josh Rouse. Adquiri a entrada (com poltrona marcada) por contato telefônico e cheguei tranqüilo para o evento, sem pressa ou receio de perder o lugar. Fiquei hospedado na Consolação, próximo ao fantástico Cine Belas Artes e a dois passos da Paulista, o coração da cidade.
O metrô de SP, baita transporte eficiente, te leva com segurança e rapidez a qualquer canto. Basta se dedicar a um complexo jogo de memória a partir dos gráficos que mostram os cruzamentos entre as linhas verde, vermelha, azul, etc. Nem foi tão difícil assim. Em dois dias me tornei um craque nas baldeações e atravessei sem problemas a cidade. Exatamente por essa razão é que fiquei impressionado com o total desconhecimento de alguns paulistanos pelos caminhos da própria cidade. Para chegar ao SESC Vila Mariana, por exemplo, me indicaram descer na estação homônima. O que me atrasou em uma caminhada de quase meia-hora, pois o teatro se localiza bem ao lado de outra estação, Ana Rosa! Erro que seria compreensivamente perdoável, se a informação não fosse dada por uma funcionária do próprio SESC. Vai entender...
Bom, não fora um caso isolado. É difícil se locomover em SP por meio de informações dos transeuntes. É melhor levar um mapinha e uma boa dose de sorte no bolso. Ninguém sabe onde fica lugar nenhum e muito menos como se chega lá! Quando estive na cidade, em outra ocasião, andei muito de táxi e era freqüente ouvir os próprios taxistas perguntarem uns aos outros como deveriam chegar em tal bairro. É claro que não acreditei que aquilo estivesse acontecendo e julguei como uma cretinice de aproveitadores baratos. Jurei que nunca mais pegaria táxi em São Paulo, e, nesta última viagem, cumpri o prometido. Mas agora me pergunto se realmente aqueles taxistas não sabiam o caminho... Não importa. É o trabalho deles e eles têm que saber de cor e não usar meus trocados para aprender. Fica a dica: não vá de táxi em São Paulo, mesmo que para isso você tenha que andar a noite inteira por causa de uma informação incorreta. De qualquer forma, o taxista também não vai saber te levar.
Josh Rouse subiu ao palco pontualmente às 21:00h. O tímido e simpático baixinho trouxe na bagagem o folk-rock inspiradíssimo do seu último álbum, “Country Mouse, City House”. Ao vivo e a cores a voz de Josh consegue soar mais suave e potente do que nas gravações. E o som do SESC é algo de impressionante! Muito bom mesmo! O teatro estava lotado, o público animado e o clima tranqüilo. Levei minha câmera pra registrar alguns momentos do show, mas infelizmente descobri que ainda não sei usá-la. Todas as fotos ficaram horríveis! Ao meu lado, um casal de velhinhos (isso mesmo, velhinhos!), que não faziam idéia de quem estava no palco cantando, tiravam altas fotografias (provavelmente para mostrar aos seus bisnetos). É, eu me odeio...
Na platéia, vários pedidos de canções e mensagens proferidas em inglês. Um carinha pediu para que o Josh falasse em espanhol (ele é casado com uma espanhola e mora por lá). O cantor respondeu com um “por que?”, no bom idioma de Cervantes, e logo depois emendou um “por favor, falem em português!”. Prontamente, uma esperta menina soltou um “lindooo!”, arrancando gargalhadas gerais. Ele ainda elogiou a sonoridade nacional, sem citar nomes (“nem entendo o que falam, o que importa é gostar da música, não é verdade?!”), comentou em tom irônico sobre os brasileiros “comprarem” seus discos pela internet (somente um álbum da discografia de Josh foi lançado oficialmente no Brasil, Home, de 2000) e apresentou sua ótima banda (destaque para o sósia de Jack Osbourne no baixo).O início do show foi recheado de canções do álbum Nashville (2005), que não conheço muito. Ótimas, mas nem de longe comparáveis a obra de arte que é “Sweetie”, a mais bela das canções de Rouse. “Sweetie” é a faixa de abertura do seu último registro. Uma linda coletagem de versos singelos, que Josh iniciou acompanhado apenas ao som do seu violão (“We'll sleep on rooftops / We'll ride on bicycles / Baby, we'll get married / Don't you want to, Sweetie?”). Com vozes e melodia perfeitas, arrepiando os bem-aventurados ali presentes.
É estranha a experiência de assistir a um empolgante show sentadinho na poltrona do teatro. O set durou mais ou menos uma hora e meia e nas últimas três canções o povo já se concentrava na borda do palco, empunhando um batalhão de máquinas fotográficas. A essa altura quase todo o teatro assistia em pé, cantando juntos a última música do espetáculo, “Directions”, da trilha de Vanilla Sky. Um lindo show.
Bem, o sábado prometia. Acordei cedo e parti pro Anhembi. Teve a Bienal do livro, que foi mais fraquinha do que a do Rio no ano passado. Menos saldos, menos encontros literários, menos novidades. Depois fui à Galeria do Rock e dei umas voltas pelo “Centro velho” de Sampa. Mas nada disso interessa, porque nessa noite Wander Wildner Y Sus Comancheros se apresentariam no Inferno Club da Rua Augusta!A Rua Augusta é um caso à parte na vida cultural paulistana. Já ouvi gente comparando a Lapa, aqui no Rio, e isso é risível! A Rua Augusta não tem comparação! Um corredor de casas noturnas, a maioria especializada em rock (no, assim chamado, lado Centro), com bandas se apresentando ao vivo e gente, muita gente, entrando e saindo, descendo e subindo a movimentada rua. Antes de qualquer coisa, a Augusta não deixa de ser a área mais democrática da cidade. Não só rockers transitam pelas suas calçadas. Dos cinemas de arte às casas de “luzes vermelhas”, todos os tipos se concentram na Augusta.
Novato nas andanças pela cidade, corri cedo para o burburinho. Por volta das onze da noite (conforme anunciavam no flyer de divulgação) cheguei à porta do Inferno Club. E que surpresa quando dei de cara com a fachada ainda lacrada e sem uma alma viva à frente. Do outro lado da calçada, ao contrário, uma multidão se aglomerava na entrada da Outs, outra casa famosa na região. Peguei uma cerveja gelada e fiquei de papo com dois integrantes de uma banda local, que me ofereceram um zine bacana com informações sobre a cena, poesias, textos e entrevistas. Eles me disseram que um pessoal do Rio, o Deluxe, se apresentava na Outs e fiquei feliz em reconhecer um antigo parceiro de banda, que há tempos eu não encontrava.
As horas passaram e o Inferno (adorei o nome desse lugar) abriu suas portas. Uma fila, ainda discreta, já se formava diante da bilheteria da casa. A entrada era toda decorada em óbvios tons de vermelho, neons e cortinas pesadas que lembravam antigos teatros poeirentos. A hostess sorriu com a minha expressão interrogativa, “mas que ‘diabos’ é este lugar?”No interior, uma casa muito agradávell. Muitos sofás confortáveis espalhados ao longo das laterais e, ao fundo, um belo palco amplo e aconchegante. Logo à direita de quem adentra o espaçoso salão, um gigantesco quadro com Tony Montana centrado numa nota de dólar. Nele, a inscrição: “Who do I trust? I trust me”, gravada em letras maiúsculas. Tô em casa! Sentei no bar e pedi uma cerveja, sendo prontamente atendido pelo agitado barman de moicano. A mocinha tatuada que colocava o som despejou um “Black Sabbath” e ouvi alguém gritar nos primeiros acordes. Do meu lado, duas meninas sorridentes e levemente alcoolizadas. Ficamos lá cantando juntos até que uma delas me disse que não dava mais pra ver meus olhos de tão pequenos que já estavam. Falei que era a luz e com isso denunciei meu sotaque, no que a outra emendou: “ele é do Rio!”
Uma da manhã. Ainda era cedo para os padrões da Augusta. Nem a banda de abertura havia subido ao palco. As meninas se apresentaram dizendo que moravam uma na Liberdade e a outra no Paraíso. Olha que lindo! Fui tentado a lançar um “e a gente vem se conhecer no Inferno, que bacana!” Elas não riram. Acho que não entenderam ou não gostaram da piada. Ou então eu já estava tão mergulhado nas cervejas e tequilas da casa que elas não ouviram nada do que eu disse.A banda de abertura, confesso que nem vi entrar ou sair do palco. Eles tocavam uma coisa meio Country e foi a hora de ficar falando sobre como São Paulo é melhor do que o Rio e de como eu admirava aquela gente e aqueles lugares. Chegou um japinha dizendo que o Wander só tocaria às três da manhã. “Putz... Essa hora da madrugada normalmente eu já estou no quinto sono!” Mas a mocinha tatuada quebrava tudo com Stooges, Dead Boys, Johnny Cash, Ramones... Eu não conseguia parar de cantar!!
Lá para as três, Wander Wildner entrou em cena com sua fantástica banda (Jimi Joe, Georgia e Pitchu). De cara, tocou três músicas do álbum novo, La Canción Inesperada, e este foi o tempo que eu levei pra pegar mais uma lata gelada e alcançar a turma do gargarejo. Quando Wander começou os primeiros acordes de “Minha Vizinha”, eu já estava lá na frente, pronto pra berrar junto! (“Moro sozinho / Num apartamento / No sétimo andar / De um prédio pulguento / Ouço vozes à noite / Que vem da parede / É a minha vizinha / Que acorda com sede...”) E todo mundo pulando junto, dançando e cantando e bebendo. Ah! Maravilha! (“Eu quero ficar preso contigo no elevadoooor...”)
Não vou lembrar da ordem das músicas. Assim já é demais, afinal, era o show do Wander Wildner! Sei que cantei “Beverly Hills”, “Eu tenho uma camiseta”, “Uste”, “Mantra”, “Maverikão”, “Narciso”, ... Viva a cerveja! Quando Wander falou qualquer coisa sobre o Júpiter Maçã (que no mesmo horário também fazia show na cidade) o povo já sabia que a próxima era o “Lugar do Caralho”. Ah! Aí o Inferno esquentou! Uma felicidade só (“Um lugar onde as pessoas sejam loucas / E super chapadas / Um lugar do caralhoo!”) Lembro da Georgia, muito simpática, abrindo um sorriso monumental. Se eu estivesse em condições mais sóbrias subia no palco e dava-lhe um abraço apertado! Ou não, né?!Das canções novas, destaque para “Um bom motivo” (“Então me dê um motivo pra não chorar / Me dê um motivo pra não cheirar cola esta noite”); a romântica “Porta retratos” (“Eu cada vez tenho mais planos / E sei que vou realizar / Mas meu propósito é amar / De forma incondicional”), para se afogar em lágrimas!! “Mares de Cerveja”, que contou com a participação de um carinha que subiu ao palco e cantou toda a letra com o Wander (“Embebedar o medo de arriscar / E navegar em mares de cerveja / Uô uô, em mares de cerveja”) e o clássico dos clássicos, “Amigo Punk”, releitura de uma antiga canção dos gaúchos da Graforréia Xilarmônica, que teve um coro em massa e desde já é canção obrigatória nos shows de Wildner (“Amigo Punk / Escuta esse meu desabafo / A essa altura da manhã / Já não importa o nosso bafo”)!
Faltou “Hippie Punk Rajneesh”, mas aí também eu já estava quase apagando. Depois do show ainda rolou uns sons dos 80, Joy Division, Pixies, Cure... Cansado, marquei de ir embora com um povo que não queria ir embora. Taí, eu sou uma paródia de mim mesmo. Saímos do Inferno com o dia claro e um frio cortante. Na volta, os nativos ainda tiveram disposição para traçar um cachorro-quente prensado numa chapa com purê de batatas (!!!) e me deixaram realmente assustado ao testemunhar a enorme fila para entrar numa casa chamada Vegas, com todo mundo arrumadinho e estiloso... Às seis da manhã de domingo!
Nem preciso dizer que dormi o dia inteiro. Acordei na ressaca e voltei a cair na cama pra só sair novamente à noite. Na primeira semana de setembro tem The Hives em SP. Dia de repetir a dose na cidade mais rock n’ roll que conheci na vida!
















